PARTE 1: A ESPERA NAS MONTANHAS
A chuva batia com força nas persianas fechadas do nosso chalé nos arredores de Navacerrada. Era uma daquelas noites de novembro nas montanhas perto de Madrid em que o frio parece penetrar nos ossos, não importa o quanto se ligue o aquecimento.
Olhei para o relógio da cozinha: 23h15. O silêncio na casa, quebrado apenas pelo vento e pelo zumbido da geladeira, parecia mais pesado que o normal.
Desde que perdi meu emprego de assistente administrativa na empresa de contabilidade, há três meses, o silêncio se tornou meu inimigo.
Cada som nesta velha casa, que compramos com tanto entusiasmo e que agora era tão difícil de manter, me deixava nervosa.
Daniel, meu marido, teve que aceitar aquele cargo de consultor que o obrigava a viajar constantemente por toda a Espanha para compensar a perda do meu salário.
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