A ala particular do hospital Sírio-Paulistano tinha o cheiro de antisséptico e dinheiro. As máquinas zumbiam enquanto um médico baixava a voz e dizia o que ninguém queria ouvir.
“Dois dias, talvez menos.”
No sofá de couro, advogados abriam pastas. Sobre a mesa de vidro, os planos para o funeral começavam a tomar forma. Flores eram escolhidas, datas riscadas a lápis. Enquanto Henrique Mattos ainda respirava, sua mãe, Dona Elvira, agarrou o lenço e rezou.
Seu meio-irmão, Ricardo, observava os monitores com uma paciência que parecia ensaiada.
Então, a porta se abriu. Uma adolescente pobre, descalça, com a chuva manchando seu vestido simples, entrou segurando uma garrafa de plástico rachada, cheia de água.
Como uma oferenda. Os seguranças avançaram, até que ela falou. “Esta água,” disse suavemente, “é a razão pela qual ele está morrendo.
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