O maxilar de Ciro Montenegro contraiu-se enquanto ele repassava a filmagem da segurança pela quarta vez. A marcação de tempo indicava 2h34 da manhã.
Sua sala de vigilância particular parecia sufocante, o brilho azul dos múltiplos monitores lançando sombras nítidas sobre seu rosto marcado por uma antiga cicatriz que descia do canto do olho esquerdo até a linha da mandíbula.
E lá estava ela de novo, Sofia Oliveira, a chef americana que ele contratara há dois meses, movendo-se pela cozinha industrial como um fantasma.
Na imagem granulada da visão noturna, seus movimentos pareciam culpados, furtivos. Ela olhou por sobre o ombro duas vezes antes de embrulhar algo em um pano de prato e esconder sob sua dólmã de chef. Suas mãos tremiam.
Ciro construíra o Sindicato Montenegro com base no instinto, na capacidade de ler a fraqueza nos olhos dos homens antes mesmo que eles soubessem que iriam ceder.
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