PARTE 1: O SILÊNCIO DO ABISMO
O silêncio em uma suíte cinco estrelas não deveria incomodar. Afinal, você paga por esse silêncio, sinônimo de exclusividade, de estar acima do ruído banal da Gran Vía.
Mas naquela tarde em Madri, enquanto o sol de outono pintava os telhados da cidade de laranja, o silêncio dentro das minhas paredes era puro medo.
Era um medo denso, opressivo, físico, que me apertava a garganta mesmo quando eu tentava respirar fundo para manter a compostura.
Aquele silêncio terrível só era quebrado, repetidas vezes, pelo choro de um bebê.
Não era o choro alto e estridente de uma criança saudável. Não era um choro caprichoso ou a birra de alguém protestando contra uma fralda suja. Era algo muito pior: um gemido agonizante. Era o choro de um corpo exausto, de uma vida minúscula implorando por ajuda com suas últimas forças antes de desistir.
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