Dizem que a justiça é cega, mas na sala de audiências do juiz Ricardo Peixoto, em Vila Serena, ela não era apenas cega.
Estava amordaçada, acorrentada e tinha sido atirada pela porta dos fundos.
Todos na pequena cidade do interior paulista conheciam a regra não escrita: se você fosse rico e influente, seus problemas eram resolvidos com um aceno de cabeça.
Mas se você se parecesse com Nádia, você era culpado até que se provasse o contrário, e mesmo assim, era provável que não fizesse diferença.
Quando o juiz Peixoto viu uma mulher negra, de certa idade, vestindo um moletom desbotado em frente ao seu tribunal, ele não enxergou uma mente jurídica formidável, uma das mais respeitadas do país.
Ele viu uma piada. Ele riu em seu rosto. Zombou de sua voz. Ele se achava o rei de seu pequeno castelo de poder. Mal sabia ele que a mulher que tentava humilhar não era apenas uma ré.
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