PARTE 1: A NOITE MAIS FRIA
Dizem que o frio em Valladolid tem uma qualidade especial; não apenas toca a pele, ele penetra, atingindo os nossos medos mais profundos. Mas naquela noite, 14 de janeiro, o frio que senti não veio da neblina que descia do rio Pisuerga.
Veio do olhar da mulher que seria minha segunda mãe e do homem que prometeu cuidar de mim até que a morte nos separasse.
—Saiam daqui e levem seus bastardos com vocês— gritou Dona Matilde.
Suas palavras pairaram no ar do corredor por um segundo antes de sua saliva atingir minha bochecha. Foi um ato tão vulgar e primitivo que minha mente levou um tempo para processá-lo.
Eu, Elena, a mulher que sempre evitou conflitos, que baixava a cabeça nos jantares de domingo para não perturbar a “harmonia familiar”, fiquei paralisada.
Não tive tempo de me arrumar.
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