A nevasca uivava através dos portões de ferro da Fazenda Montenegro, um santuário cravado nas profundezas da Serra dos Órgãos, onde o dinheiro comprava o silêncio e a misericórdia era uma língua estrangeira.
A noite caía rápido ali, fria o suficiente para congelar o próprio pensamento.
Do lado de dentro, uma assistente de enfermagem movia-se silenciosamente entre os leitos hospitalares, trocando curativos, administrando morfina, limpando o sangue de suas mangas com a eficiência de alguém que já fizera aquilo mil vezes.
Ninguém prestava atenção em seus olhos, calmos a ponto de serem anormais. Ela era invisível, apenas mais uma funcionária mal paga no império secreto de Heitor Montenegro.
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